Em vistoria, presidente da CPI que investiga poluição da bacia d’água confirma denúncias de poluição que vem deteriorando saúde da população da região ao longo dos anos
A Comunidade da Cerâmica, em Sol Nascente, foi palco de uma visita técnica no último sábado (6), liderada pela deputada Paula Belmonte, presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Rio Melchior, na Câmara Legislativa do Distrito Federal. A intenção foi avaliar de perto a grave situação enfrentada pelos moradores, que além de conviverem há anos com a poluição da bacia d’água e a falta de saneamento básico, tem sentido nos últimos tempos as ameaças de instalação de uma usina termoelétrica que pode prejudicar ainda mais o dia a dia na região.
A poluição às margens do Melchior tem adoecido os habitantes da Comunidade da Cerâmica nos últimos anos e foi o mote inicial para as investigações que motivaram a instalação da CPI. “Esta visita aqui, para mim, é a mais importante”, destacou a presidente do colegiado, Paula Belmonte, que vem ressaltando as condições de saúde da população local, como problemas de pele e dentários, e quedas de cabelo.
“Nós ouvimos relatos de pessoas passando mal, com dor de cabeça, crianças com erupções na pele. Foi importante o depoimento de uma professora que tem contato direto com as crianças e falou dessa situação. Nós estamos preocupados com a poluição desse rio no percurso do Distrito Federal, mas principalmente com essa comunidade aqui que é diretamente atingida e que já tem um reflexo na saúde”, contou a parlamentar ao longo da visita, confirmando denúncias que têm sido registradas pela CPI.
Vômitos e diarréia crônicos também são constantes. Estudos da Universidade de Brasília (UnB) indicam que a água dos poços artesianos, dos quais a maioria dos moradores depende, já que não há água encanada ou saneamento básico, não é própria para o consumo ou banho devido à contaminação do lençol freático pela poluição no Melchior.
Atualmente, a região é atendida por apenas quatro agentes de saúde, um médico, um enfermeiro e um técnico de enfermagem da unidade de saúde de Sobradinho/Penedo Norte, um número considerado insuficiente para a área.

Descaso com a população
A precariedade na região não para na questão ambiental. A Escola Rural Guariroba, que atualmente atende cerca de 500 crianças, pode acabar desativada caso a termoelétrica seja autorizada a funcionar.
Além dos problemas diários, a comunidade vive sob a ameaça da possível instalação de uma usina termoelétrica nas proximidades da Escola Classe Guariroba. Esta escola é um orgulho para a comunidade, oferecendo educação rural diferenciada, período integral e múltiplas refeições, além de uma infraestrutura completa com biblioteca, quadra, parquinho e professores capacitados.
A deputada Paula Belmonte criticou a ideia de remover a escola, enfatizando que isso feriria o direito das crianças de estudar perto de casa e de manter sua identidade rural. Há ainda a grave preocupação com os riscos à saúde, já que em locais onde usinas termoelétricas foram implantadas, 30% da população desenvolveu câncer, além da necessidade de remover moradores da área.
Professora da escola, Valquíria Gonçalves destacou que o local é essencial para a comunidade, não apenas pela educação, mas porque oferece quatro refeições ao dia para as crianças. “Aqui, a nossa escola é uma escola de campo, de zona rural. E eu tenho certeza que muitas famílias não têm condições de dar as três refeições para as crianças”, reforçou, lembrando da vulnerabilidade da população.
“Eu nunca vi, na história do Brasil, uma escola sendo retirada para colocar uma usina. Essa escola, se ela sair dali, para onde essas crianças vão? Vai ferir vários direitos: o direito da criança estudar próximo a sua casa, o direito da questão da identidade dela – ela é uma criança da zona rural, ela tem todo o tratado diferente, o modo de viver diferente”, ressaltou Paula.
Sempre enfatizando seu empenho na atuação em defesa da comunidade e, em especial, dos direitos das crianças, a deputada afirmou ainda que seguirá lutando para que a CPI encontre soluções concretas para os problemas, mesmo precisando enfrentar desafios para isso no parlamento. E pediu união dos moradores para que, juntos, seja possível impedir a instalação da termoelétrica.
Outras duas visitas técnicas ainda devem ser realizadas: à Escola Classe Guariroba e à uma fábrica de sabão que também despeja dejetos no Rio Melchior. As datas ainda serão agendadas.

